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Barbárie e ''legítima defesa''

A Colômbia está em chamas no momento mais duro da pandemia

20/05/2021 - 22h29 - Federação Livre - Tânia Trento

 Dialogar nas regiões e por fim à barbárie é condição fundamental para se negociar um plano de emergência

Por Consuelo Ahumada (publicado em Carta Maior) 19/05/2021

(Leonel Cordero/Las2Orillas)

Créditos da foto: (Leonel Cordero/Las2Orillas)

Completam três semanas de uma expressiva mobilização social. O descontentamento e a revolta da juventude e das comunidades se acumularam em décadas de abandono, promessas não cumpridas, enganos e frustrações, penúrias de todo tipo, racismo e aporofobia (aportuguesando seria grevefobia). A decisão de rasgar o Acordo de Paz e a indolência e cinismo do governo Iván Duque radicalizaram a situação. Agora sabemos que a pandemia adiou o 21 de novembro (21N) de 2019, uma das maiores manifestações populares desde a década de 1970, e o transformou em 28 de abril (28A) de 2021, quando a população resolveu protestar contra uma reforma tributária.

Em um período de dois dias a profundidade da crise foi desnudada. A barbárie militar não dá trégua. Na última quinta-feira, se soube do suicídio de uma jovem de 17 anos em Popayán, depois de denunciar que havia sido assediada sexualmente por quatro integrantes do Esmad (Esquadrão Móvel Antidistúrbios), que a detiveram enquanto ela gravava seus desmandos. “Me apalparam até a alma”, escreveu pouco antes de morrer.

Apesar dos vídeos e das evidências, o general da polícia classificou a denúncia de “falsa, vil e mesquinha”. A prática patriarcal e sistemática das Forças Armadas tem sido por décadas o abuso sexual e feminicídio de indígenas, estudantes e jovens de bairros populares.

Relatório recente das ONGs Temblores e Indepaz denuncia a dimensão dos abusos: 2.110 casos de violência policial, 40 homicídios atribuídos à força pública, 30 vítimas de lesões oculares. A Defensoria Pública registra 87 vítimas de violência sexual. Outras entidades contabilizam 49 mortes e quase 400 desaparecidos.

Existem denúncias bem sensíveis, que levaram as duas ONGs a solicitarem uma visita da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos): a existência de uma suposta “cota” de detenções de manifestantes em troca de promoções dos policiais, o modus operandi dos “falsos positivos”. A isso se soma o uso indiscriminado de armas de fogo contra a população, a suposta extorsão de detidos, lançamento de gás lacrimogêneo em moradias, tortura dentro de instalações militares e de centros de detenção.

Duque e o Exército têm respondido com uma mobilização descomunal de força e violência. O presidente permanece isolado num mundo paralelo. Disse que não iria a Cali para não distrair o trabalho da força pública. O general Zapateiro, amigo do falecido narcotraficante Popeye, anunciou que pacificaria a cidade em questão de horas.

Os ministros da Defesa e do Interior insistem em responsabilizar “terroristas” pelas manifestações. Os dirigentes sociais são tratados como criminosos e designados por seus apelidos, como denunciou o governador de Cauca. Em cima de seu pedestal, o promotor endossa os ultrajes das Forças Armadas e alardeia as supostas conquistas de sua entidade. O Defensor Público se nega a escutar os indígenas.

Marcha em Bogotá, hoje. Monumento aos heróis da independência recebe milhares de jovens que exigem mudanças de fundo no Estado e no Governo de Iván Duque. Greve Geral completa 20 dias.

Sob o peso da situação, a extrema-direita mostra suas intenções. O diário El Espectador divulgou partes da gravação de uma videoconferência entre 100 empresários e políticos do Centro Democrático de Pereira e Valle; sobretudo amigos de Álvaro Uribe, ex-presidente colombiano.

Fala-se na reunião sobre o isolamento de Duque, da necessidade de decretar o Estado de Comoção interna e de continuarem incitando o Exército para que responda. Também insistem em pressionar a imprensa para que “mude sua narrativa” e concentre-se em “virar o jogo”.

Rechaçam qualquer diálogo porque os manifestantes seriam terroristas infiltrados. “Temos que buscar os meios de trazer à luz os responsáveis disto, que se chamem Fecode (Federação Colombiana dos Educadores) , CUT (Central Única dos Trabalhadores), Cric (Conselho Regional Indígena de Cauca), todos eles”, assinala a diretora de Caracol, no eixo cafeteiro.

Sem dúvida, tudo segue a linha do famoso twitter de Uribe conclamando o Exército a usar armas de fogo nos protestos. Os empresários também consideram se armar: “Aqui no grupo eles já perguntaram quem tem armas, e se vamos nos organizar”. Falam em “legítima defesa”. De fato, a teoria da Revolução Molecular Dissipada, trazida para a Colômbia pelo neonazista chileno e difundida por Uribe, parecia surtir efeito.

O ataque à mobilização indígena ao sul de Cali e a manipulação midiática contra ela há uma semana foram um indício claro dessa tendência, como o é a mensagem de uma médica de Cali pedindo para que sejam mortos pelo menos mil indígenas e trazidos de volta os paramilitares.

O governo parece cercado. A dura reação internacional contra suas arbitrariedades não para. Nos EUA. 55 congressistas enviaram uma carta ao presidente Biden pedindo a ele que denuncie o uso excessivo e indiscriminado da força contra os manifestantes. Querem que seja suspensa a ajuda militar ao Esmad e que ele rechace publicamente as declarações do governo Duque de classificar os protestos como terroristas. No Reino Unido, 17 parlamentares se pronunciaram no mesmo sentido.

A Colômbia está em chamas em meio ao momento mais duro da pandemia. Por fim à barbárie é condição fundamental para se negociar um plano de emergência. A crise sanitária e a renda básica são pontos prioritários. Mas também deve haver um diálogo nas regiões, como tem insistido o monsenhor Darío Monsalve e o padre De Roux. O Comitê de Greve, com toda sua legitimidade, deve continuar com seus esforços para incorporar lideranças da juventude de todos os setores do país. E o governo nacional deve garantir a vida.

*Publicado originalmente em ‘Las 2 Orillas‘ | Tradução de Carlos Alberto Pavam

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